Danilo Samuel dos Santos
2 – Primeiras horas de indecisão
- Luna, já
para dentro!
A cachorrinha
de pronto obedece, sabendo que ela deveria cuidar da familia, mas para mim ela
era o alerta, elas todas eram minha responsabilidade e meu dever cuidar. A
garagem se estende com o carro dela e a minha camionete, não tinha muito tempo,
mas sair a esmo não seria uma boa ideia, por hora tenho que ver o que aconteceu
com os veios e fechar a casa deles, preciso pensar com calma antes de tomar uma
atitude.
Primeiro passo
tenho que garantir que nenhuma merda deste tipo terá novamente acesso ao meu
quintal, e considerando a altura do muro interno definitivamente isso significa
intervir na casa de meu vizinho. E tentar garantir a prior que seja o
suficiente.
Entro em casa
e pego minha Tomahawk* esse é um modelo só com lamina e um tipo de martelo
atrás, não é bom ter nada pontudo apontado para si durante um combate.
Os sofá formam
um L, com uma mesinha na intersecção e uma mesinha de canto, tem o tapete e a
mesinha de centro, a área forma um corredor imaginário com o acesso para a
cozinha ao fundo, e o raque montado com a TV para assistir, na tentativa de
salvar a cachorra nem me preocupei em pegar a arma, que fica atrás do raque,
uma falha grave que poderia ter custado a vida. Mas na ausência de algo que
atire, a machadinha serve.
Minha esposa
vem pelo corredor rápida e sorrateira.
- Meu bem! Meu
bem, eles não atendem, as linhas de emergência estão todas ocupadas, mas olha
meu bem! – Ela fala com voz chorosa, os canais de noticias online estão
apontando desastres por todas as partes, inclusive envolvendo outras coisas
medonhas, coisas que fariam Lovecraft se orgulhar.
- Puta que
pariu! Que merda!
Obviamente eu
não detenho a capacidade de ver minha face, mas se pudesse provavelmente
estaria com uma face mista, de supressa e medo, com o queixo caído mediante ao
choque, aparentemente pelas seleções isso está ocorrendo em todo lugar.
- Meu bem!
Fica tranquila, daremos um jeito, preciso verificar a casa deles agora e
reforçar a entrada da rua para garantir que nada entre, por hora, fica com a
Luna e as garotas no quarto, tenta conseguir notícia, tanto da Rachel tanto dos
nossos pais. – Falo segurando o rosto dela com delicadeza e segurando a mão
firmemente para passar confiança – Depois decidimos o que fazer. – Dou um beijo
em sua testa e ela só faz um gesto positivo com a cabeça ainda bem abalada.
Pego também o
soco inglês com quebra vidro que está na mesinha de canto, a pior arma
secundária que poderia ter, passo o fiel na mão direita, não quero correr o
risco de ficar sem a machadinha. Pulo o muro bem em frente a porta de entrada
em um semi pop voult* baixo para passar para o outro lado, a garagem fechada,
talvez a porta para rua esteja aberta. Ainda agachado pela aterrissagem, me
movo para a garagem, preciso ver se a porta está aberta, mas não, o carro na
garagem e a porta para rua fechada!
"Mais que
raios é está merda!" Exclamo em minha mente calculando, tudo fechado, em
ordem, se não veio de fora de onde veio esse ser?
A vibração
atrás de mim me alardeia e rolo para frente evitando o golpe.
Mas um deles!
Dessa golpeou para baixo, o estalo do piso quebrando, com o golpe da unha desta
coisa, o bixo é forte, pelo menos uma 2x vezes mais transmissão de força que um
humano comum, o que significa que tomar esses golpes seria gamer over, o corpo
desligaria para auto proteção, quebraria algumas costelas com certeza, fica
dois furos e um pouco do piso quebrado.
Agora que dei
uma olhada mais atenta, Caninos em pares proeminentes, ficam para fora da
gengiva como um golen, pele roxeado pálida, altura similar a minha, por volta
de 1,70, o que significa envergadura similar e pelo Seio Nage ter funcionado,
provavelmente uns 85 kg na média, as articulações são bem humanoide, dá para
perceber duas placas bem cheias formando o peitoral mas é como se o peitoral
fosse escavado, o que seria o trapézio parece ter uma articulação própria
saindo da nunca e deixando o queixo firme, o que explica o porque o golpe no
outro não funcionou, é como um mini casco protegendo algo, mas ainda flexível o
suficiente para promover um movimento curto de pescoço. Não tem orelhas, mas
tem um tipo de membrana que parece ser mais sensível, o nariz se resume a dois
Orifícios em uma protuberância colada, que remete ao nariz de morcego, porém
colados na pele
Só um carro e
um espaço de cerca de 3 metros por 4, quase um ringue, quem diria. Como bom
combatente, arma branca na mão forte, mão armada a frente e posturado.
O que seja lá
que for isso, tenta me acertar, desvio o golpe usando um bloqueio reto com o
corpo do martelo, a recuperação é prejudicada, a força dele é superior, ele
tenta outra estocada, desta vez esquivo e chuto o joelho que faz a criatura
desiquilibrar, o movimento circular descendente é prejudicado, ele executa como
se fosse um cruzado logo após apoiar no carro mas com as garras, tiro minha
barriga de alvo e recuo o movimento com a machadinha que passa no ar.
"Maldito!
Então tu também quer jogar?!" Neste momento meu lado lutador aciona,
"Então venha" ele tenta um chute, meio que um chute básico, mas com
aquelas garras/unhas vindo junto, Saio para lateral acertando um golpe com o
Tomahawk*, abre uma lapa de carne na panturrilha, e a criatura cai escorregando
no chão. O golpe em formato de meia lua buscando a garganta, a criatura abaixa
e segura meu pé puxando-o, o voleio me faz cair de costas no chão, caramba, nem
com base firme deu para minimizar. Ela Vem por cima descendo um tapão,
segurando firme com os ombros bem aparados, coloco a lâmina de machado na
frente e corta o braço dela, ela grunhim e faço a inversão indo para um tate
shiho gatame travando o braço dela, ela segura minha roupa para fazer o
movimento de puxada e sinto o tecido rasgar, então ela me olha confusa
"Como assim ele não sentiu nada?", é como se o pensamento dela
ecoasse em sua face.
- Sinto... – O
machado desce, o corpo cede – Muito!
Tiro o machado
do crânio dela nem um pouco confortável, não sei o que está ocorrendo, não sei
o que pensar, mas é minha segurança e da minha familia. Não posso arriscar!
Tiro o retalho
de camiseta que sobrou em meu tronco, e coloco a criatura perto da parede menos
visível para quem passa na rua, Não que a rua seja movimentada ou irá ficar
movimentada hoje.
Adentro a casa
já esperando qualquer criatura, mas parece estar tudo tranquilo, ao menos, a
cozinha e a sala revirada, a casa tinha banheiro, cozinha, sala, sendo a sala e
a cozinha americana, então um hall com a parede dividindo e de um lado o
banheiro e do outro o quarto, quarto esse que...
- Não é
possível!
A cena que se
predomina, os órgãos deles espalhados, misturados com roupa de cama, a dona
Gertudes caída de cara na parede, muito sangue e confusão, só tiro o rosto dela
que mesmo morto demonstra total pavor, e sua garganta perfurada, provavelmente
ele foi morto e nem teve chance de gritar, e ela teve esse direito podado-lhe,
mesmo que não fosse adiantar, o grito entalado que ecoa pelo semblante para a
eternidade.
Sem muito o
que fazer vasculho o restante da casa.
Mas a real é
que não tem nada o que procurar, a casa fica no centro do terreno, só não tem
passagem dos dois lados pro fundo pois eles fizeram a lavanderia no corredor
lateral, ao fundo tem uma horta.
Pulo de volta.
E entro.
- Meu amor,
nossa!
- Pai você
está bem?
Percebo que
tem um pouco de mancha de sangue daquilo, que é vermelho, por isso o susto
delas.
- Tinha mais
uma lá, mas não tem mais, infelizmente não temos mais senhor Osmar nem dona
Gertudes! – Elas colocam a mão na boca. Minha enteada está tentando ligar
desesperada para alguém! – Antes de discuti algo eu vou me lavar e me trocar.
Tranquei a porta da Sala, seja lá o que era não forçou a entrada, mas não vamos
se descuidar. – Minha esposa balança a cabeça em afirmativo.
- Rachel está
bem, ela e o Gustavo já foram movidos para uma zona de quarentena, isso está
ocorrendo no mundo.
- O mundo
todo?
- Sim! – Ela
tem o queixo tremido – Não tem para onde ir, parece que no mundo inteiro até
bases militares caíram, esses seres só apareceram de forma aleatória em todos
os lugares. O que vamos fazer? – Eu me aproximo segurando os braços dela...
- A Rachel
está bem, isso é meio caminho andado! – Faço como uma massagem – Olha nós...
- Mas que
droga! – a Roberta fala em raiva e desaba na cadeira largando o telefone
furiosamente na mesa.
Lucia tenta se
aproxima mas fica com medo da reação da irmã, ela está com medo de ir lá fora,
está com medo de olhar o celular, está com medo de tudo.
Caramba, é
muita coisa nem consigo processar tudo.
- O que
aconteceu? – Falo em tom mais sério do que o que desejava.
- Você não ia
entender. – Sério!?
- É o Josué? –
Pergunta minha esposa, tá explicado, o pretendente/namoradinho dela não atende.
- Ele não
atende ela fala se encolhendo na cadeira, como quem quer se compactar em um
único ponto.
Minha esposa
se desvencilha de mim para ir dar um abraço, todos confusos sem ter no que se
apoiar mas servindo de apoio ao outro e desabando em sucessão.
- Olha, ele
deve estar bem, vamos pensar de forma positiva, mas temos os avós e ele, a
Rachel está bem, o restante a gente vai descobrir, vou tomar banho, enquanto
tudo ainda meio que está funcionando, vamos tentar conseguir o máximo de
informação, se tem uma zona de quarentena deve ter outras, vamos tentar
descobrir. – Nem me pergunte de onde veio, mas precisamos de um primeiro passo.
- E se ele não
estiver lá?
- Eu tento
ajudar, mas antes temos que descobrir!
A discussão
cessando, precisamos otimizar, eu tomo um banho rápido, tiro essa meleca de
sangue de... Globlin? Orc? Nem sei o que é isso, se tem doença, ou o que tem,
não tem como saber. A resposta virá com o tempo!
A Luna
permanece em alerta, como quem está preparada para entrar em confronto a
qualquer momento.
Dione acamou a
Roberta. Conseguimos contato com meus cunhados, eles se retiraram com a igreja
para um evento, e quando tudo aconteceu no meio da noite eles estavam em um
lugar que virou uma zona segura, ou seja, menos mal, já aqui na cidade por ser
uma cidade grande está um caos, seres que parecem Eurypterida's* porém com o
dobro do tamanho e mesclando características de escorpião com um tipo de
apêndice, como um probóscide de um pernilongo, alguns vídeos upados e live não
derrubadas mostram que o propósito é o mesmo.
Seres como
esses que eu derrotei também aparecem, já apelidaram eles de Serens, pareceu em
alguns vídeos que eles estão tão confusos quanto nós, seria eles algum ser
hominídeo? É como se duas realidades se chocassem, o centro daqui da cidade
virou parcialmente uma floresta mesclada a ruina de prédios, muitos certeza
morreram, o aeroporto foi pro espaço, estamos a salvo pois moramos afastado do
centro em uma região que quase começa o mar infinito de cana para aproveitar,
realmente não precisava ficar indo ao centro da cidade.
- Meu amor!
Vou ter que ir pro centro, o bairro que minha mãe mora não foi atingido pelo
que apelidaram de floresta arcana, mas as criaturas ainda estão por ai.
Ela esboça uma
reação de fala mas é interrompida!
- O Josué mora
perto dela. – Roberta se prepara para pedir o óbvio mas é interrompida.
- Não você não
vai, lá está com todo o tipo de criatura bizarra, que não entendemos, você é
biólogo, sabe os riscos, é como se um Jurassic Park medonho surgisse, e se você
for você vai morrer!!! Ela nem atendeu o telefone... – Ela desmonta na mesa.
- Meu...
- Não vem com
meu bem! Olha eles! - Aponta para casa dos velhinhos desfalecidos. – Olha você!
Ta vivo, poderia não estar! O que faremos sem você? O que eu farei sem você! –
Ela fala em meio as lagrimas.
A Lucia
sussurra algo no ouvido da Luna, que reage se portando em frente a porta e me
encarando, é como se tivesse pedido para ela não deixar eu sair.
Que sinuca de
bico!
As forças
armadas estão completamente bardenadas, essas coisas surgiram em todos os
lugares do nada, Ninguém sabe explicar como ou porquê, isso inclui os quartéis
e unidades militares registradas e não registradas, ou seja, o números de
médicos, militares, e tudo está reduzido, as áreas menos afetadas viraram o que
eles chamam de zonas de exclusão, os veículos de mídias nenhum está
transmitindo, as informações que tem são da internet e desconexas, é o completo
caos.
...
Algumas horas
antes...
...
A senhora
acorda, do lado sua fiel escudeira Crespinha, sempre atenta e que como um
carrapato segue a dona para todos os lugares. Mas aprendeu a dormir do lado da
cama como uma boa garota.
As duas já
senhoras se levanta, rotina normal, escovar os dentes, preparar o café, até que
ocorre de ouvir uma barulheira no vizinho!
Que extranho,
eles também tem idade, não são de algazarra. Estavam recebendo os netos e uns
amigos. Talvez fosse...
- Socorro!
Não! Vai matar ele! Não! Não!
Som de tiro!
A Nancy já
abaixada, "meu deus, o que ocorre, o que acontece" ela não tinha como
saber. Ninguém tinha.
Dois garotos
pulam o muro, um dele moreno, com dread's, só com o samba canção, ressaltando a
urgência, seu braço dilacerado, se apoiando apenas em seus ossos e tendões, mas
a fome de sobreviver o fez pular aquele muro de 230 cm para se salvar. Mas uma
daquelas coisas pulou junto.
O outro garoto
o empurra porta da cozinha adentro daquela senhora e um Seren o abraça mas sem
ser com as garras.
- Gustavo
nãoooooo! – Grita o garoto patinando em seu próprio sangue enquanto a senhora
fecha a porta.
Tomahawk =
Machadinha de origem indígenas do norte da américa usada para caça e combate!
Tate Shiho
Gatame = Posição popularmente conhecida como montada no MMA
Pop Vault =
Técnica de Parkour para pular obstáculos medianos (cerca de 2 metros de altura)
sem perder muita velocidade, no caso meio pop vault se refere a ter pulado um
muro mais baixo que a estatura dele mas usando o mesmo principio.
Eurypterida =
Tipo de criatura marinha pré histórica quase do tamanho de um homem adulto,
cujo o corpo lembra o formato de um escorpião.
Probóscide =
Apêndice usado por pernilongos para sugar o sangue se alimentando.
1 – O início
Dia 03/08/2019
Mais um dia comum, acordar, tomar
café e ir para o laboratório, o objetivo, trabalhar em uma pesquisa sobre
cultivo de plantas indoor e o impacto que isso poderia ter sobre a produção de nutrientes,
se tivesse certo poderíamos alcançar mais produção com menos impacto ambiental,
e de quebra devolver nutrientes e sabor a planta e vegetais. Acordei as 03:30
da madrugada para chegar no laboratório as 5, hoje será mais um dia que verei o
sol nascer quadrado.
Antes de sair beijo delicadamente
minha esposa, ela resmunga algo como sempre o faz, mas desta vez eu não
entendi, o que importa e ir cedo e sair cedo, hoje o dia será agitado.
Trabalho com uma equipe concisa, sou
o responsável pelo projeto que tem interesses comerciais por trás, mas se
comprovado servirá para minha tese de doutorado, o que acaba por ser um grande
upgrade em termos de carreira, uma pesquisa minimamente relevante, mas se
apontar o óbvio vai ajudar uma “parcelinha” de algo do mundo ir em uma direção
melhor.
Mas meu dia foi regido a
verificar status, ajustar a aclimatização e regular os novos ciclos circadianos,
fazer a verificação de kilowatt consumidos, etc. Tem que deixar todos os
aspectos da pesquisa alinhado com extremo rigor, afinal tem algumas aferições a
mais que são interessantes serem feitas. Por volta das 12 horas chega o doutor
em Biotecnologia Maurício Motta de Avellar Alchornne, ele desta vez não vem a
nosso encontro, desconfio que ele chegaste apenas por alguns sons abafados de
murmurinhos que ecoam ao longe. Teria que verificar se é verdade, a ideia seria
coletar algumas biópsias de exemplares já maduros para coleta de dados, mas
nosso maquinário de biópsia é antigo e demorado, ainda tinha pela noite desse
dia daria ensinamentos a um cara, pegaria minha filha na escola, daria duas
aulas de magistério e já sairia arrumado para encontrar meu amor no teatro.
Não sou um homem de muitos luxos,
tenho uma casa legal, nem muito grande nem muito pequena, tem um quarto para
minha filha e um para minha enteada, a outra mora longe com o noivo, minha mãe
mora em outra cidade e meu pai já é falecido, mas meu sonho é mudar para uma
casa de madeira em uma região de litoral, apesar da lógica gritar que esta é
uma péssima ideia. Porém minha carreira e conforto financeiro vem em primeiro
lugar. Por isso leciono em faculdades para ter um extra.
- Senhor Daniel, agora só falta a revisão de
marcadores de nutrientes, mas este tipo de biópsia toma tempo, provavelmente só
teremos o resultado mais tarde. – Relata Katleen já me vendo terminando alguns
relatórios, é como se ela soubesse que vou sair mais cedo, mas quem dera,
cheguei de madrugada.
- Sabe se o doutor Mauricio está no prédio? -
Faculdade, pegar filha na escola, treinar aquele nerd, ir ao teatro com minha
esposa, agenda cheia e complicada, minha enteada poderia pegar a irmã na
escola, a aula que tenho que dá para...
- Ele acabou de confirmar que que vai ficar, -
a interrupção alivia os meus pensamentos em fervorosa, enquanto ela relaxa os
dedos na tela do celular - ficou atolado com uns relatórios que ele esqueceu de
preencher, sabe como ele é!
- Típico dele, quem curte preencher
relatórios, se não fosse nescessário acho que ninguém faria, estou desde as 5 da
manhã trabalhando nisso, são 15 horas, então vou deixar por ele para verificar
os resultados. Mas pode deixar que irei falar com ele!
- Manda um abraço para dona Dione por mim! – Ela
sorri brevemente de forma simpática.
- Pode deixar que mando sim! –
Pisco para ela em retribuição – Tenha um bom trabalho, pode deixar que o
Mauricio registra os resultados! Até amanhã!
Acenamos e sigo em direção a saída do
laboratório.
Faço todo o procedimento e passo
para avisar o doutor Mauricio, ele fica de cuidar do registro da biópsia e a Katleen
vai coletar, assim fica bem distribuído o trabalho.
Vou direto para o campo que fica
40 minutos da empresa, hoje o treino será com armas.
- Senhor Daniel! – Gustavo faz a
saudação como habituado.
Ele sempre no horário, uniforme
limpo e a postos, queria uma aula personal com uma novidade, e dá para ver que
ele está ansioso.
Devolvo a saudação e digo:
- Hoje nosso tempo é curto como falei, então
faremos um treino mais estático digamos assim. – Antes que ele possa falar algo
tiro dois objetos, um negro e o outro branco, jogo o negro para ele que segura
todo estabanado – Tá na hora de começar a aprender o Nunchaku. Primeira regra:
Não seja burro! Segunda Regra: Esse Nunchaku branco chamuscado é meu, se
encostar na minha bençã tu morre! – Falo em tom de ameaça e depois solto um
risinho para descontrair.
Ele segura o objeto demonstrando
total falta de afinidade, mas ainda um encanto.
- Se fosse uma guria tu já tinha tomado um
fora e um xingo. – Ele olha em reprovação – Vamos relembrar o básico de
corrente e entender onde isso se conecta com a arma. Mas antes o aquecimento
pulmonar, coloca a arma no chão a frente e entra em posição de Kima Jaze*.
Prosseguimos para os exercícios de
respiração contraindo o corpo como um todo, ao mesmo tempo que travamos e
soltamos o ar, depois uns exercícios para soltar o corpo, e iniciamos com os primeiros
golpes.
Relembrando técnicas com um pano
amarrado na ponta, assim lembrando os golpes básicos longos e depois curto,
assim ele pega rapidamente a ideia da arma, depois coloco um pouco de kompop*
combinando com os ataques laterais e movimento triangulados para ataques
diagonais, passando a ideia geral da arma.
Depois de uma sequência de alguns
exercícios a aula se encerra.
- Ky You! - Dizemos ao mesmo tempo.
- Treine! Adiantei a aula da próxima semana
para tu!
- Pode
deixar senhor Daniel.
- Sua
casa fica na direção do colégio Francisco Melo né?
- Fica
sim, porquê?
- Se quiser
eu te deixo em casa!
- Não
precisa se incomod...
- Se não
quiser tudo bem, só pensei porquê para mim é caminho, já te adianta uma
skeitada??? – Falo fazendo careta apontando pro Skate na mão dele.
- Neste
caso agradeço então senhor! – Fala enquanto dá de ombros e segue em direção ao
carro.
No
caminho ele fala como tomou coragem de chamar a garota para sair, ultimo ano do
ensino médio, vai ter que ir para alistamento obrigatório, como o pai é um ex-militar
capaz que entre no exército, e me lembro das rodinha lá na academia, ele já era
afim da guria a tempos, mas as vezes se sentir sem saída faz a gente avançar,
bem e as vezes é só o que precisamos, avançar.
Deixo
ele em casa, e vou direto para escola pegar ela.
Entro na escola com um aceno para
as inspetoras, como minha guria é pequena fica tudo bem de ir até a sala buscar
ela, passo pelo refeitório e sigo pela parte coberta a esquerda, ela estava na
porta mas entra assim que me vê, logo entendo que deve estar meio envergonhada
pelo uniforme de treino.
- Olá! – Comprimento a professora.
- Ela já ta vindo! – Responde a professora
devolvendo o comprimento com um aceno.
- Oi pai! Xau tia!
- Como foi a escola hoje?
- Foi chato! Teve que copiar um
montão de matéria, Eu copiei tanto que acho que estou até sem as mão!
- Nossa! Então como vai fazer
para vir para escola amanhã? – Falo simulando espanto enquanto caminhamos já
para fora da escola?
- Não vou conseguir, meus braços
estão doendo e estou sem mãos, posso ficar em casa amanhã? – Fala ela envergonhada,
mas querendo um pretexto para faltar.
- Só se a gente for no hospital pegar um
atestado que seus braços desintegraram! – Debochadinho...
- Isso não é justo! – e faz birra
cruzando os braços, só toco a cabeça dela com carinho e percebo um riso tímido.
Chegando em casa não tenho muito
tempo, vou para o Banho e pego minhas coisas.
Nossa casa é térrea, o quarto do
casal é o último, o banheiro fica no corredor antes do quarto, tem o quarto da
enteada mais velha e o quarto menor da mais nova, então entre os quartos tem um
banheiro menor para visitas apenas. Então vem uma cozinha e uma sala, quintal
da frente e quintal do fundo com uma porta lateral para a cozinha e uma porta lateral
para a sala, tirando a conexão interna, na real não sou muito fan de casa
assim, mas conseguimos ela por um bom preço, então mesmo sendo uma casa trem é
uma boa casa.
Com minha cachorrinha me
esperando do lado de fora do banheiro, me troco com ela de olho em tudo,
notando a movimentação de quem não vai ficar em casa, ela olha para as pastas,
pesarosa.
- O meu bem, eu sei, mas papinho
volta mais tarde tá bom? – Falo como se consolando ela – Deixo você dormir aqui
hoje!
- Rãrãrãnhummm Au! Au! – Como quem reclama que
não é o suficiente. Estas últimas semanas tenho ficado bem ausente.
Pego o material para a aula da
faculdade, e me troco, camiseta, camisa, jaqueta, calça Oxford e bota, me olho
no espelho mas mesmo já tendo 30 anos até que ainda encaixa o estilo em mim.
A minha enteada e meu amor chegam
bem na hora de sair, minha enteada da escola e ela do trabalho. Ela abre um
sorrisão quando me vê e eu retribuo ainda com um monte de pastas na mão, deixei
umas matérias separadas para a aula de hoje. Ela vem até mim e passa a mão no
meu cabelo e damos um selinho.
- Todo bonitão de professor. Te
vejo a noite?
Olho aquela exuberância, olhos
cor de mel cabelo cor de fogo, Estava usando uma saia bem grande rodada e uma
blusinha polo, usando um salto pequeno, baixinha me fazia contemplar ela de
cabeça baixa e ansiedade sempre alta, mas tinha que ir.
- Sim, te encontro no teatro.
Damos mais um selinho um pouco
mais demorado, mas ainda rápido, conto as pastas com o tato, uma mochila, três
pastas. Tudo certo!
Durante a primeira aula tudo
corre bem, a outra aula seria uma palestra.
- Vida! Uma probabilidade em um de muitos
universos possíveis, isso se existir muitos universos possíveis, depende do
quanto você gostou de Dark ou de Interestelar, ou depende do quanto gosta de
Isekais também. – A plateia ri um pouco – Não estranhem, vocês estão aqui para
assistir uma plateia que um homem qualquer de meia idade falando sobre as possíveis
origens para vida, isso significa que vocês são tudo nerdolas, que nem este
homem de meia idade que vos fala, mas também significa que tem suas próprias
concepções pessoais sobre vida de modo geral, afinal um gato é vivo, uma
bactéria é viva, eu sou vivo, um vírus é... – Ninguém conclui – Exatamente,
ninguém sabe o que um vírus é, e ninguém liga, só ligamos para a vacina que vai
nos proteger dele, mas percebam que sequer conseguimos definir todas as
possibilidades de um ser ser vivo ou não vivo, na real você pode pensar que é
ou não, mas ainda assim isso não explica a intricada origem caótica e contraditória
da vida! Afinal a lei básica do universo é que o tempo caminha para frente, cosmicamente
está apontando na direção da desordem, o universo sempre tende de sair de um
estado de menor desordem para um estado
de maior desordem, e a vida como ilhas intricadas de ordem com seu ordenamento
genético autorreplicante parece ir contra o senso cósmico, como se tudo não pudesse
ser explicado por forças naturais, seria então Deus? – Antes de alguém cortar
eu logo respondo – Nha, sempre fui muito inclinado para Mitologia Nórdica ou Tupi
por influência de papai, logo teria que escolher em qual acreditar, o que
significaria ser ateu para todo o restante dos Deuses, é uma saída interessante,
mas fácil. Mas estamos olhando o problema sobre o ângulo do porquê a vida
surgiu no universo, como se a vida tivesse alguma relevância para o universo,
que é o prisma que todos olhamos, incluindo cada uma das religiões existentes,
mas hoje proponho olharmos de outro ângulo: E se a vida surgiu no universo por
que ele é como ele é? Mas não, isso é muito chato, pois todas as mitologias e
religiões coloca a vida como um papel de destaque, correto? Mas pense que poderia
ser pior, e se a vida surgiu no universo, pelo universo não só tender a vida,
mas tender a entropia? – Todos se olham confuso – A vida é um estado organizado
de informações que podem ser repassadas de forma organizada a frente correto?
Então... Para um meio tão organizado se manter é preciso que o meio ao redor
seja mudado e permanentemente alterado, e ai eu te pergunto, qual o sistema
ordenado que mais cria desordem dentro de um sistema macro no universo? Esse sistema
é a vida! – Por um minuto percebo que alguns deles nunca tenham se tocado
disso, alguns parecem resmungar algo sobrea humanidade – Mas veja bem, isso não
se trata de nós seres humanos, toupeiras cavando buracos, arvores impedindo
deslizamentos, cianobactérias alterando as concentrações de gases atmosférico ao
ponto de alterar o clima, e nós como bons humanos revertendo o quadro, Mamutes
que compactavam o gelo ártico, e que sem este serviço o gelo fica menos firme e
mais suscetível a mudanças, etc... Desde de uma Efêmera até o Ser Humano a vida
é um dos maiores agentes do caos, então pode ser que todo o universo tende a
vida, pois todo o universo tende ao caos, e não existe caos mais maravilhoso
que o ordenamento da vida!
O pessoal se empolga com o breve
poema no final, mas não perco tempo.
- Agora vamos começar a entender a parte
técnica, depois podem usar essas palavras com a familia no próximo feriado!
Termino a palestra, 20:30, ainda bem
que já vim trocado, ligo para minha esposa!
- Meu bem!
- Oi meu amor, estou a caminho, está com os
ingressos?
- Sim meu amor, eu trouxe o seu
também!
- Tá bom, logo estou aí.
Até as 21:00 dá tempo.
...
Chego a tempo no teatro, a Lucia
um pouco emburrada porque brigou com a irmã, coisa de irmãs e nem me meto, sentei-me
do lado da minha esposa e as crianças do lado dela, assistimos há peça, um
musical sobre uma familia que tem um bar e vai passando pelas eras musicais,
muito boa.
Chegando em casa leio uma história
para a Lucia descansar, já que a Roberta quer falar com a mãe, provavelmente
sobre a faculdade ou algum namoradinho, faço as ordens dessa vez, assim que ela
dorme vou para o quarto e me troco rapidamente, quero descansar hoje.
Logo minha esposa entra no quarto
em trajes de dormir, a camisola sem muita maquiagem, e enfim... Olho medindo-a da
cabeça aos pés e solto um suspiro, ela nota minhas intenções e lança um olhar
meio meigo mas com um fundo provocador.
- Que
foi? – Pergunta inocente com bochechas coradas e sorriso safado.
- Nada
não! É só que tem uma mulher muito gostosa no quarto! – Falo enquanto ela se senta
na beira da cama.
Venho
por trás dela com calma meio que massageando os ombros, beijando o pescoço
então ela sussurra.
Ela
fala:
- Amor, a porta... Tem que fechar
a porta!
Eu olho para ela, ela olha para
mim, e vou fechar a porta.
Dia 04/08/2019
Acordo meio tarde, já é umas nove
hora.
Desligo o despertador que toca,
minha esposa ainda não acordou, nem as meninas, chegamos em casa tarde, acho
que vou deixar o cardio para mais tarde, depois da passada pelo laboratório
para chegar os resultados.
A Luna late muito para a rua lá
no quintal, nossa, ela pulou a janela, pois eu sei que a Dione ela deixou
entrar durante a noite.
- Luna! O que foi?
Ela impassiva latindo não para a
rua, mas para a casa do vizinho, como se tivesse algo, o nosso muro é baixo, e casa
mais alto, então estico os olhos e meu santo Thor! Sangue.
Aquilo foi inesperado.
- Meu bem, o que está acontecendo? Surge minha
esposa tirando minha concentração da cena a frente!
Ela toma um sustou ao ver cobrindo a boca mas
não grita.
Me aproximo e falo baixo para ela:
- Meu amor, tem sangue na janela – aponto pela
nossa janela mostrando a janela deles - do senhor Omar e a dona Gertudes, liga
para ambulância e para a polícia, vou ver o que posso fazer.
A Luna gruinhim rosnando, meio
que brigando, e neste momento eu vejo, não sei o que era, mas não era humano,
segurando a Luna pela barriga e apertando enquanto ela tenta morder aquele ser humanoide
já dentro do nosso quintal.
Mas não importa, se tem um corpo
fisico pode ser ferido, se pode ser tocado pode ser morto, e se mexeu com o ser
que eu amo então ele será morto!
Passo pela porta e encho a mão em
um soco que nem move o rosto da criatura, mas chama a atenção dela, a pele tenaz
como pele humana mas grossa como o couro de um crocodilo, a criatura larga ela
que se afasta mas já entra em posição de combate. E a criatura com os braços na
lateral do corpo, olhos negros, pele pálida, dois pares de caninos a mais e
mais proeminentes, mão com unhas grossas e longas, com garras retas na real, os
pés também, indicando que apesar de bípede os pés são usados para luta.
- Faz o que te mandei e fecha a porta. – Grito
enquanto me movo chamando a atenção da criatura para longe da porta de entrada.
Cada segundo é crucial, sem
perceber mas nenhum bicho e com a Luna ao meu lado a criatura usa uma investida
tentando acertar um golpe com as garras, mas não em direção curva, mas retilínea
como se querendo furar meus olhos, abaixo e circulo me mantendo em posição de
combate e a Luna não avança, ela que apesar de não ter sido adestrada tem uma
sinergia peculiar, ela vai avançar se eu atacar, e como eu vou atacar vai
definir a intensidade do ataque ela, porem suas mordidas mal deixaram marcas, e
o trapézio ou similar da criatura permitiu ele de absorver o soco.
Ele tenta se virar rápido atacando
com o braço oposto o mesmo golpe, impacto interno, faço o movimento de seio
nage adaptado porém afundo no meio do movimento o braço para baixo, preciso da
resposta se o aparelho respiratório é semelhante, se for será xeque mate no
próximo movimento, se não terei que atacar as articulações.
Mas o espasmo e a “tosse” reflexo
mostra que apesar de ser muito resistente, pois um golpe assim mataria a
maioria das pessoas, sim, o aparelho respiratório é humano, inclusive a forma
como o espasmo se comporta em seu aspecto visível é similar a de um humano.
Sem dar chance da criatura se
recuperar piso em seu pescoço afundando a cartilagem para dentro e a Luna avança
rasgando o pescoço daquilo.
Esse está morto, mas olho pelo
portão na rua, mais sangue, certeza que tem outros, precisarei encontrar uma
saída urgente.
0 - O prelúdio
Cá estou eu, na mais tenra idade, tendo vivido muito mais
que nossos antepassados em um mundo completamente novo, e ainda em ruínas.
Sobrou o pó, e do pó no levantamos, e nos sacrificamos para
conseguir se libertar, mas tudo mudou naquela noite, mas só tomamos
conhecimento de manhã, mas isso não importa agora, o que importa é tudo o que
fizemos e o que deixamos, não nós, nós se tornaremos pó e só isso que teremos,
mas sim o que deixamos e influenciamos para aqueles que estão aqui e vão
continuar, neste caso irei escrever, e tu decide o que fazer com isso depois.
Eu construí meu império em cima das ruínas do mundo e da
perspectiva de vida que nos foi destinada e tirada de forma vil, tão rápido
quanto a vida de uma efêmera, agora deixo com vocês, minha história é meu
legado, é onde esta os ensinamentos e onde está a única riqueza que vale a
pena.